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sábado, 5 de maio de 2012

Serie Viajante Solitário - Conto 08


Antes a chuva me tivesse arremessado aos rios e tivesse me integrado à natureza eterna...
Viajante Solitário.
Uma alma boa viu-me castigado, molhado, caminhando pelas trilhas do mundo e me acolheu. Que bom, que belos dias passei desfrutando de uma nobre hospitalidade até partir. Uma linda mulher, uma grande alma de coração maior ainda que em poucas horas deu-me sustento ao corpo e carinho, como nunca em toda vida tive.
E eu senti de novo.
Senti de novo, a punhalada aguda no meio do coração. Paixão tão inesperada quanto cruel. Faz-me lembrar os dias passados quando era um homem "social", amigo de amigos, empresário e vivendo numa linda família. Amores então, quantos não desisti no princípio por puro medo e tudo em função de uma grande amiga que aos poucos se tornou meu maior amor. Amor este, nunca correspondido, a maior faca cravada em meu peito.
Um dos sinais que me fez viajar à procura da eternidade.
Quão importante essa mulher terá sido em minha vida, em minha jornada ? Recebi tanto dela naqueles dias que fez-me rever parte das ideologias que tracei para mim. Terá realmente valor continuar nesse mundo injusto ?
Gestos como esse que presenciei são tão raros...
Confundiu-me o cérebro, desequilibrou-me o coração de tal forma que pude sentir tudo de novo, minha carência afinal... todavia parti.
Minha amiga diria que finalmente meu super ego se revelou.
Na carroceria de um caminhão de porcos deixei as terras onde meus valores foram alterados, olhando a mulher me acenando e sua casa, cada vez menores no horizonte de meus olhos, cada vez menores cedendo lugar aos campos, à estrada, ao céu azulado, à vegetação, aos animais pastando um atrás do outro... até que uma curva a separou definitivamente de mim.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um Poema de Maiakovski

O que é belo deve ser sempre citado, e mesmo que muitos blogs já o tenham publicado, eu insisto em trazer este poema de Maiakovski, esse momento singelo de inspiração e beleza. Apreciem!

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.